quinta-feira, 8 de maio de 2014

Correntes de ar


Deixas sempre a porta encostada e sei que no dia em que a fechares vais voltar e saltar pela janela. Só preciso que feches a porta, estou doente devido às correntes de ares que provocas em mim. Estou cansada do corrupio e da agitação que provocas com o teu entra sai do costume. Fecha a porta e deixa-me a chave. Fecha a porta e tranca-a com a mesma vontade que tiveste de a abrir outra vez. Não voltes a remexer na caixinha que te mostrei. Prepara-te porque vou mudar todas as pequenas coisas de sítio. Vou fazer remodelações no coração até ao mais escondido dos cantinhos e depois asseguro-me de que a fechadura da porta é mudada e que deixei as janelas todas fechadas para não voltar a adoecer. Já estou exausta desta velocidade com que vais e vens, estou exausta das emoções e correntes de ar. Fecha a porta e não leves a chave nova. Não faças barulho nos meus silêncios, não interrompas a minha solidão com as tuas ventanias repentinas. Tenho saudades de quando fechavas a porta mas ficavas comigo, na nossa solidão, nos nossos silêncios, sem correntes e ar e sem pressas. Tenho saudades mas quero que feches a porta, do lado de fora. Quero que não voltes a deixar-me doente. Fecha a porta e deixa-me a chave. Fecha a porta e não leves a chave nova.

Doente, martinha

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